Fernando Pessoa O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia. A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos. Como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos. . . [...] Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade no espaço. . . Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram ali. . . Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores, de paisagem externa. . . E nós não nos perguntávamos para que era aquilo que não era para nada. Nós sabíamos ali. Por uma intuição que por certo não tính...
O Silêncio que se faz....