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Alheio

 Fernando Pessoa

O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos. Como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos. . .
 [...]
Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade no espaço. . . Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram ali. . . Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos  interiores, de paisagem externa. . .
E nós não nos perguntávamos para que era aquilo que não era para nada.
Nós sabíamos ali. Por uma intuição que por certo não tínhamos. Que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha externa onde as montanhas são hábitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la era estranho como um perfil de cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal.

(O Eu profundo e os outros Eus, pág. 109)



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30/06

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Dúvidas

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