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(En)constraste-me

Foto: M. Crisóstomo Trazia nas mãos a mais nobre das oferendas: a gratidão. No olhar, a humildade de quem aprendera que desta vida nada se leva. Tinha a voz calma e uma serenidade contagiante. A sua face revela as marcas inevitáveis do tempo que passa e leva consigo o que a juventude não pode conter. Seu olhar é compreensivo e de alguma forma, não me sinto inédita em tua presença. Sua experiência já sabe o que eu sentia e o quanto era efêmero. Toda força física agora convertida em palavras sábias. Com o timbre enfraquecido, ouvi-la exigia o silêncio interno. Ela mudou tanto que cabia perfeitamente no meu abraço. Sem pressa ou qualquer resistência, nunca hesitou adormecer ao som do meu coração. Não sabia quanto tempo lhe restava, mas, sentia que o meu estava esgotando. Texto: M. Crisóstomo
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Relato de uma metade

Imagem da Internet Ela tinha os olhos encantadores e trazia em si o sorriso mais cativador que já vi. Por traz do tom da sua voz tinha algo que eu não bem o quê, mas, tinha a ligeira impressão de que se a ouvisse por alguns instantes a mais, descobriria... se foram 15 anos. Nunca a questionei o que seria, mas, de alguma forma ela sabia que eu gostava de ouvi-la. Após cada frase o riso era certo, mesmo que uma lágrima viesse em seguida. Era esse riso que por vezes representava um ponto final e, noutras, um ponto sequente, que me fazia destinar-lhe toda a minha atenção. Eu conheci nela, a maior variação de sorrisos que um ser pode dispor. Me apaixonei todos os dias. Ela não era uma pessoa comum. Tive a sorte de descobrir e valorizar isto muito antes que outros. Agradecia a Deus por acordar ao lado dela e ouvir a sua voz rouca a me dizer: “Bom dia Amor! Que tenhamos e sejamos Paz!”. Mas, independente de ela me dizer isso, o meu dia seria feliz porque ela estava al...

Volta quando sentires saudades

M. Crisóstomo Imagem da Internet Não importa para onde tu vais ou por quanto tempo demores. Importa que o teu regresso seja impulsionado pela saudade. Saudade do riso fácil, ora discreto, ora sem reservas. Saudade do beijo esperado ou roubado, mas, todos com cumplicidade. Saudade do banho demorado, de dividir o chuveiro, o espelho e do abraço sob a água que cai. Saudade de compartilhar a cama, o travesseiro e  o cobertor. Saudade de ouvir a respiração ofegante e o coração acelerado, de sentir o abraço que acolhe, protege e dignifica cada instante. Volta para tomarmos café, para pedirmos pizza no meio da noite, para conversamos sobre o lançamento da sequência do livro, do filme, do novo CD daquela banda que tanto gostamos. Volta pra eu te contar como foi o meu dia e para me contar como foi o teu dia. Volta pra eu te olhar nos olhos e abraçar-te em seguida. Volta quando sentires saudades para que cada momento seja igualmente único. Volta, se lhe...

Inevitável

M. Crisóstomo Foto: Maryellen Crisóstomo (Rio-Niterói) Àquele desejo ínfimo de nem mesmo respirar. Que invade e atropela qualquer expectativa de Ser, de Ter e Crer. O sabores que diluem e emanam do vazio. Quando escrever é mais que uma arte e se torna uma necessidade, uma fuga do Ser, do Sentir. A rebeldia do existir, o exílio da alma e da calma. A serenidade em devaneio de leve, bem leve. Por vezes completamente, outras, tormenta. Sutilmente, ou, num esforço súbito, talvez bastasse respirar, apenas respirar um pouco. As palavras sem nexo substituem os vazios da página e abrem lacunas no magma do Ser. Um arrepio, a razão, o medo, o desejo e o inevitável:  o esquecimento.

Subitamente

M. Crisóstomo Àquela saudade que a gente leva na lembrança, no peito, na mochila, no bolso, no olhar, no pensamento, no sorriso, no aroma, no ímpeto e no esquecimento. De leve, bem leve, o toque e o arrepio... Eleva-me. Ps. Este texto ficou sem ilustração porque eu não quis o óbvio e não encontrei algo complementar

Com a distância os dias se transformam em anos

Imagem da internet M. Crisóstomo Do lado oposto, a minha visão periférica captava a tua expressão estatizada a observar os meus movimentos. Inquieto e tenso, repetidas vezes fui do armário para a mala com as mãos ocupadas. Tentei, da melhor maneira, ajeitar cada peça no espaço que fora preenchido com rapidez. Na penteadeira, separei os meus pertences e os juntei a bagagem sobre a cama. Com um nó na garganta, não pude falar. Podia ouvir a tua respiração que, com os meus movimentos, interrompia o silêncio angustiante. Por vezes quis sair correndo, sem levar qualquer objeto, pelo fato de não ter que tocá-los e despertar lembranças que já não podem ser revividas. Apesar da pressa, demorei mais do que o necessário. A tua presença deixara-me naturalmente sem ação. Queria poder lhe dizer tantas coisas. Faltaram-me as palavras quando ao erguer os olhos encontrei os teus a sustentar-se em minha pessoa. Mirei-o por um instante e recolhi-me em minha inconstância. Sentei na cama, abri a últ...

A arte da observação

M. Crisóstomo Imagem do Twitter Do lado oposto, tua calma despertou minha atenção. Cruzei a multidão com os olhos fixos em tua pessoa repousada em uma cadeira de fibras a observar os transeuntes ora dançantes, ora a procura de um lugar. Tua fisionomia a me denunciar que tempo lhe fora implacável.  Tuas mãos sobre a bengala a me dizer que já não poderias sustentar teu próprio corpo por si só.  No rosto, a expressão de encantamento ao invés de surpresa. Talvez por já teres vivenciado cenas semelhantes nos teus dias de juventude. Queria ouvir tua voz, teus causos, olhar em teus olhos e afagar teus poucos cabelos embranquecidos. Acostumado com a pouca demora daqueles que passam por ti. Me olhastes com receio. Creio que já não buscas se apegar aos que partirão em breve. Iniciei um diálogo monossilábico, seguido de riso. - Boa noite. Respondeu-me sem muito crédito e voltou os olhos para a rua em movimento. Por minha conta, busquei a cadeira próxima e sente...