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Regresso

M. Crisóstomo

Imagem do Twitter
A decisão de voltar é sempre um desafio. Voltar para um mundo que, sem razão para se adaptar, permanece igual – ou normal, se preferir.
Optei por voltar sozinha. Havia programado-me para esvair em lágrimas no percurso que faria ao regressar-me. O ambiente gélido, aos poucos fez-me recolher junto ao meu corpo a procurar pela ternura que insistia em permanecer dentro do meu ser.
Ao olhar pela janela fui atraída pela lua reluzente, embora solitária. Durante o caminho ela surgia e escondia na mesma proporção em que parecia que iríamos nos aproximar. Por vezes tive a sensação de que se estendesse minha mão para além da janela, a tocaria por um instante, sobre a serra.
O céu e a constelação a perder no infinito e ela, a lua, a desafiar a grandeza da escuridão num show particular com o seu brilho próprio. Tão desinibida quanto desejada a vi esvaecer, aos poucos. Com as horas, a noite passava e ao alvorecer, seu brilho já não era tão nítido. A persegui com meu olhar vislumbrado até a luz do astro sol ofuscá-la por completo.
Ao virar para a esquerda e não pude conter-me quando vi o sol regalar o dia insurgindo por trás da serra, bem diante do meu encantamento para com a aurora tão radiante.
Coloquei o óculos escuro, recolhi-me junto a minha humanidade e o contemplei com o mesmo encantamento que testemunhei o show lunar pela janela oposta.

Quando ao intrínseco desejo de chorar, esqueci. A noite estava linda demais para perder cada instante daquele espetáculo. Outro dia programarei um momento para lágrimas na expectativa de ser subitamente interrompida.

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30/06

Não peço à Deus a graça de poder narrar minhas histórias, apenas a dádiva de vivê-las. "É bom olhar pra trás E admirar a vida que soubemos fazer É bom olhar pra frente, é bom, nunca é igual Olhar, beijar e ouvir cantar um novo dia nascendo É bom e é tão diferente [...]" (Dessa vez - Nando Reis) Self: M. Crisóstomo

Dúvidas

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