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Com a distância os dias se transformam em anos

Imagem da internet
M. Crisóstomo

Do lado oposto, a minha visão periférica captava a tua expressão estatizada a observar os meus movimentos.
Inquieto e tenso, repetidas vezes fui do armário para a mala com as mãos ocupadas.
Tentei, da melhor maneira, ajeitar cada peça no espaço que fora preenchido com rapidez.
Na penteadeira, separei os meus pertences e os juntei a bagagem sobre a cama.
Com um nó na garganta, não pude falar. Podia ouvir a tua respiração que, com os meus movimentos, interrompia o silêncio angustiante.
Por vezes quis sair correndo, sem levar qualquer objeto, pelo fato de não ter que tocá-los e despertar lembranças que já não podem ser revividas.
Apesar da pressa, demorei mais do que o necessário.
A tua presença deixara-me naturalmente sem ação.
Queria poder lhe dizer tantas coisas. Faltaram-me as palavras quando ao erguer os olhos encontrei os teus a sustentar-se em minha pessoa.
Mirei-o por um instante e recolhi-me em minha inconstância.
Sentei na cama, abri a última gaveta do armário e lá estava cada  minuto nosso.
Respirei fundo. As lágrimas foram insustentáveis. Fechei a gaveta, a mala. Peguei o coube em meus braços e seguir para a porta.
No percurso, apenas a certeza de que, sem amor ou glória,  não voltarás.

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30/06

Não peço à Deus a graça de poder narrar minhas histórias, apenas a dádiva de vivê-las. "É bom olhar pra trás E admirar a vida que soubemos fazer É bom olhar pra frente, é bom, nunca é igual Olhar, beijar e ouvir cantar um novo dia nascendo É bom e é tão diferente [...]" (Dessa vez - Nando Reis) Self: M. Crisóstomo

Dúvidas

M. Crisóstomo Ainda não sei, se te olho disfarçadamente ou se contemplo a sua presença. Se caminho ou se corro em sua direção. Se lhe estendo apenas uma mão ou lhe ofereço meu abraço. Não sei se sorrio ao olhar em teus olhos, ou se mantenho a indiferença. Tenho dúvidas se aceito a despedida ou se lhe peço para ficar. Não sei se pergunto por quanto tempo vais ou se posso seguir contigo... Não sei se lhe envio os versos dedicados ou se apago-os ao terminar de digitá-los... Um dia ao recordar todos os poemas que lhe dediquei, reescreverei-os e a ti me entregarei. Imagem: reprodução da internet

(En)constraste-me

Foto: M. Crisóstomo Trazia nas mãos a mais nobre das oferendas: a gratidão. No olhar, a humildade de quem aprendera que desta vida nada se leva. Tinha a voz calma e uma serenidade contagiante. A sua face revela as marcas inevitáveis do tempo que passa e leva consigo o que a juventude não pode conter. Seu olhar é compreensivo e de alguma forma, não me sinto inédita em tua presença. Sua experiência já sabe o que eu sentia e o quanto era efêmero. Toda força física agora convertida em palavras sábias. Com o timbre enfraquecido, ouvi-la exigia o silêncio interno. Ela mudou tanto que cabia perfeitamente no meu abraço. Sem pressa ou qualquer resistência, nunca hesitou adormecer ao som do meu coração. Não sabia quanto tempo lhe restava, mas, sentia que o meu estava esgotando. Texto: M. Crisóstomo