Por Maryellen Crisóstomo
Acordou destemido e a cabeça já não lhe cabia todos os
planos. Escovou os dentes, tomou um banho, com muito cuidado para não lavar os
pensamentos.
Vestiu a melhor roupa e pegou o chapéu preto, que transmite
um ar de seriedade. Caminhou em direção a sala, pegou a bengala e partiu certo
de que o dia era o ideal para novos negócios.
Tinha tudo. Planejara tudo. Só lhe faltam três mil ducados.
Três mil ducados! É apenas uma questão de tempo. O discurso está pronto. Só lhe
resta a sorte para encontrar alguém que lhe dê crédito. Simples, os ventos
sopram a seu favor.
Pela calçada o raro sol no céu de Veneza, ilumina-te os
caminhos. Por vezes não consegue se conter e faz reverência às damas, lhes
desejando que: “tenham um bom dia!”. Esse caminho sempre foi belo? Não,
respondeu para si mesmo. Hoje os meus olhos estão a ver somente beleza,
completou, após saudar outra donzela.
Bem sabe ele quão promissor é o mercado de Veneza e como as
taxas de juros estão em alta. Dificilmente alguém resistirá ao seu discurso de
jovem experiente, as suas estratégias e ideias. Afinal todos querem ganhar.
Na primeira oportunidade foi direto ao ponto.
- Quando menino de escola, se eu perdia alguma flecha,
costumava lançar outra, em seguida, para achar a primeira.
Diante do olhar interrogador, continuou:
- Assim, as duas arriscando, acabava, muitas vezes, por
ambas encontrar.
Essa é a frase magna, pois, se ainda menino, fora capaz
obter tal percepção, o que poderia dar errado, hoje, conhecedor das tendências
do comércio de Veneza? Desta vez, decidido a transparecer o máximo de
honestidade permitido para aquela situação.
- Já me emprestastes muito, e como jovem estúrdio, perdi
tudo o que vos devo. Mas se quisésseis mandar outra flecha na direção daquela,
não duvido que, atento à meta, encontrarei as duas, ou, quando menos, a última
devolvo ficando a vos dever apenas uma.
- Meu caro jovem resoluto! Vejo quão audaciosa são as vossas
intenções, não digo que não me comovi. Com esse discurso, alcançarás vossas
pretensões. Mas, eu já o conheço e rogo a Deus para preservar a minha memória e
nunca vos esquecer.
Disse-lhe o credor.
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