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Não tive tempo de envelhecer.

Por Maryellen Crisóstomo

Como  a maioria já não lembra bem da minha forma física, eu poderia começar com o tão conhecido: ‘Era uma vez...” porém, como tenho consciência da minha existência, prezo intimidade e nuances das breves e gloriosas lembranças.
Venho de uma época não muito distante da qual me orgulho pelo fato do pioneirismo da inovação tecnológica. Lembro-me que no meu tempo, preço era sinônimo de qualidade e não simplesmente de poder aquisitivo ou da capacidade de abrir crediário para pagamentos em carnê.
Incontáveis vezes presenciei a inevitável alegria de uma pessoa ao ouvir uma voz. Tornei a distância menos longa e a saudade superável. Fui motivo de orgulho para uns poucos e de inveja para tantos outros.
Modestamente, eu gostava de ser especial. Era indiscreta a minha presença onde eu estivesse. As minhas funções eram poucas e o meu existir valia muito. As minhas relações foram duradouras e dificilmente trocavam-me, ao contrário dos dias atuais.
Amava tocar quando era solicitado, logo era agarrado com cuidado e conduzido as proximidades do rosto, podia sentir a frieza e inquietação das mãos ao segurar-me. Percebia o ritmo das batidas do coração e passava por mim diversas tonalidades de voz. Ora calma, ora ofegante e por vezes, o silêncio.
Parece que sou antigo, mas, se passaram duas décadas e hoje o que importa é a minha réplica. Como dizem: “foi uma evolução”. Muitos querem o pedaço da maçã que o dera Bill Gates.
A transposição do analógico para o digital extinguiu a minha geração.
Antes eu fui projeto, experimento e tão logo uma ideia que deu certo e, oxalá foi superado. Não represento mais uma necessidade do ser humano, mas, a vaidade deste. Não digo que não existia vaidade  nos tempos de outrora, a prova é que não consegui acompanhar e me perdi e perderam-me. Na verdade a concorrência era quase nula e a preferência era minha.
Não tenho ciúmes, não me entenda mal. Apenas me sinto velho. Tudo bem. Não tive tempo de envelhecer. Após 20 anos eu simplesmente não existo.
Amigos perguntam se eu voltaria caso tivesse oportunidade, sorrio e deixo a dúvida no ar. Talvez seja evidente a minha angústia por estar prezo no passado das pessoas.
Por vezes me consola a certeza de que as coisas e muitos momentos são atrelados ao tempo ao qual pertencem, sem permissão para seguir. Seria muito egoísmo meu ainda ser a atração. A plateia mudou e os meus argumentos não seriam mais tão convincentes.
Aceito, embora não sem dor, o fato de que não foi criado para durar. Hoje a minha inutilidade é sinônimo de preocupação.
Muito se fala em reciclagem, vivem apresentando ideias para reaproveitamento. Como estou internado num ambiente reservado para lixo tecnológico, em breve, devem triturar-me para o bem comum. Então, deixarei de ser inútil para ser qualquer coisa.
Ah, meu nome?

- Primeiro Aparelho de Telefone Móvel. Muito prazer, ou melhor, adeus.

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